sábado, 2 de maio de 2015

BCAA: Usar ou não usar?

Adaptado de Paulo Gentil (GEASE)




BCAA é a sigla em inglês para aminoácidos de cadeia ramificada (branched chain amino acids), constituídos por: Leucina, Isoleucina e Valina. A suplementação destes aminoácidos é muito comum entre atletas de endurance e praticantes de musculação, sendo impulsionada pela descoberta científica de que eles são prioritariamente oxidados durante atividades físicas. Atualmente existem algumas suposições quanto aos efeitos da suplementação de BCAA:

- os BCAAs competem com o triptofano na passagem pela barreira sangue-cérebro podendo, desta forma, atenuar a fadiga central.

- a suplementação de BCAA evitaria que se usasse a reserva muscular de aminoácidos, diminuindo o catabolismo e ajudando, assim, na hipertrofia.

integralmedica.com.br


Uso de BCAA em Atividades de resistência

Um estudo dinamarquês comparou três situações: ingestão de carboidrato, carboidrato+BCAA e placebo na performance do teste de 100 km em indivíduos treinados. Neste estudo houve controle da alimentação, estado de treinamento e treinamento realizado antes do teste. Antes e durante o experimento os atletas eram alimentados com uma das três bebidas. Ao final do estudo, não houve diferença na performance entre as três situações, com os níveis de glicose e lactato se mantendo similares em todos os testes, apesar dos níveis de triptofano serem maiores no grupo placebo e os de BCAA maiores na suplementação destes aminoácidos (MADSEN et al, 1996). 

Em 1995, VAN HALL et al conduziram uma pesquisa onde se suplementou triptofano ou BCAA em ciclistas. Quando se suplementou triptofano, a quantidade livre deste aminoácido aumento 20 vezes. No entanto não houve diferença entre os grupos (triptofano X BCAA) na perfomance de um teste até a exaustão. Como provar a teoria da competição com o triptofano se nem mesmo um aumento de 20 vezes a quantidade deste aminoácido prejudica a performance? Se fossemos estabelecer uma correlação linear, poderia-se inferir que os indivíduos estariam 20 vezes mais sonelentos, porém no estudo de VAN HALL não foi relatado nenhum caso de ciclistas dormindo durante o teste.

DAVIS et al (2000) parecem estar certos ao afirmar que apesar de haver uma base teórica aparentemente convincente, não há dados suficientes para comprovar os efeitos positivos da suplementação de BCAA na fadiga. HARGREAVES & SNOW (2001) afirmam que o uso de BCAA não parece afetar a fadiga em exercícios prolongados. 
Existem também outras propostas para o uso de BCAA em atletas de endurance. Pesquisadores brasileiros realizaram um estudo para verificar os efeitos da suplementação de BCAA em fatores imunológicos, a hipótese é de que esta prática reverteria os efeitos negativos que as atividades extenuantes exercem nos níveis de glutamina. Realmente isto foi verificado: ao final do Triatlo Internacional de São Paulo, os atletas que receberam a suplementação de BCAA mantiveram os níveis plasmáticos de glutamina constantes, já os que receberam placebo tiveram uma redução de 22,8%. 

Musculação

Como os aminoácidos de cadeia ramificada são oxidados pelo músculo, supõe-se que sua suplementação atenue a degradação protéica que normalmente ocorre durante os processos de obtenção de energia. Desta forma, muitos praticantes de musculação têm usado BCAA para auxiliar no processo de ganho de massa muscular, por acreditar em uma diminuição do catabolismo. Nesse sentido, pesquisadores da University of Tasmania, verificaram que a suplementação de BCAA (+/- 12 g/dia durante 14 dias) atenua os níveis de indicadores de danos musculares durante o exercício prolongado (COOMBES & McNAUGHTON, 2000), porém falta saber o real significado deste resultado.

Mas, de fato, existem algumas evidências para o efeito anticatabólico dos BCAAs. BUSE deixou um grupo de ratos em jejum por dois dias e em seguida injetou, por seis horas, as seguintes infusões nos roedores: salina (placebo), glicose ou BCAA+glicose. De acordo com os resultados, os ratos que receberam os BCAAs tiveram melhor retenção de tirosina, indicando um papel do BCAA na manutenção da massa muscular (BUSE, 1981). Os resultados são interessantes, mas a generalização do protocolo para humanos é muito complicada: 

 1) se dois dias de jejum já é muita coisa para humanos, imagina para ratos!

 2) imagina o que significaria na cronologia do organismo humano, o equivalente a seis horas de infusão de BCAAs!?!

 3) a mistura de BCAA+glicose gerou um fornecimento de uma maior quantidades de calorias, o que, por si só, já pode influenciar o metabolismo. 

Desta forma eu acho que o estudo é um exemplo interessante, mas com suas limitações não deve ser parâmetro para os praticantes de musculação.

Um estudo publicado em 1975 por FULKS et al, verificou que os aminoácidos de cadeia ramificada tem efeitos anticatabólicos e anabólicos em preparações in vitro de músculos do diafragma de ratos (o que parece um pouco distante de nossa realidade). Outro estudo interessante foi feito 20 depois na Yale University School of Medicine, onde se comparou os efeitos da infusão de BCAAs e a de placebo em seres humanos em jejum (LOUARD et al, 1995), porém novamente há problemas com a generalização, pois a infusão durou 16 horas, e os indivíduos do grupo placebo ficavam em jejum enquanto os outros recebiam os BCAA no sangue. Realmente nesse caso eu tenho que dar o braço a torcer, em níveis de metabolismo, eu preferiria tomar BCAA na veia que passar 16 horas sem comer, porém, felizmente, essa não é uma escolha que tenhamos que fazer no dia a dia. Obviamente que ocorreria uma diminuição no catabolismo com a infusão de BCAA, pois o grupo experimental possuía nutrientes na circulação enquanto o outro, apenas uma infusão salina sem valor calórico.

Ao BCAA também são propostas alterações endócrinas positivas. Um estudo italiano procurou verificar o efeito de um mês de suplementação de BCAA nos níveis de lactato, GH e proteína receptora de GH (GHBP). Os níveis de lactato pós-exercício foram menores durante a suplementação, porém as diferenças entre os níveis de GH e GHBP pré e pós-tratamento não foram significativas.

Resumindo

Os estudos feitos com BCAA estão muito distantes de serem animadores. Em atividades de endurance os efeitos destes aminoácidos parecem ser eficientes em indivíduos destreinados realizando atividades até a fadiga, o que dificilmente ocorre em situações reais. Mas, conforme podemos concluir, o uso de BCAA não parece alterar a performance de indivíduos treinados. 
Em musculação, a situação é mais grave, pois não há nenhuma base para se usar a suplementação, nem teórica, nem prática. Mesmo em termos de ingestão calórica, a suplementação de BCAA teria pouca eficiência, pois as dosagens disponíveis nos suplementos do mercado são muito baixas, tanto que muitos estudos usaram infusão e não ingestão. OBS do autor do blog: (Em experimentos pessoais na indústria de suplementos foram constatados em quatro marcas líderes de mercado em BCAA problemas físico-químicos no teste de desintegração dos comprimidos, o que pode prejudicar a absorção e reduzir os níveis de BCAA sanguíneo). Outro ponto bem lembrado por LIU et al (2001) é que, apesar de estudos in vitro terem mostrado que as deficiências de alguns aminoácidos de cadeia ramificada poderem prejudicar a síntese protéica, não há situações reais em que os níveis caiam a tal ponto em humanos, de modo que a concentração fisiológica de BCAAs é sempre suficiente para manter a relação anabolismo/catabolismo, sem que a suplementação seja necessária.

Referências bibliográficas

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COOMBES JS, MCNAUGHTON LR. Effects of branched-chain amino acid supplementation on serum creatine kinase and lactate dehydrogenase after prolonged exercise. J Sports Med Phys Fitness 2000 Sep;40(3):240-6. 

DAVIS JM, ALDERSON NL, WELSH RS. Serotonin and central nervous system fatigue: nutritional considerations. Am J Clin Nutr 2000 Aug;72(2 Suppl):573S-8S. 

DE PALO EF, GATTI R, CAPPELLIN E, SCHIRALDI C, DE PALO CB, SPINELLA P. Plasma lactate, GH and GH-binding protein levels in exercise following BCAA supplementation in athletes. Amino Acids 2001;20(1):1-11. 

FULKS RM, LI JB, GOLDBERG AL. Effects of insulin, glucose, and amino acids on protein turnover in rat diaphragm. J Biol Chem 1975 Jan 10;250(1):290-8. 

HARGREAVES MH, SNOW R. Amino acids and endurance exercise. Int J Sport Nutr Exerc Metab 2001 Mar;11(1):133-45. 

LOUARD RJ, BARRETT EJ, GELFAND RA Overnight branched-chain amino acid infusion causes sustained suppression of muscle proteolysis. Metabolism 1995 Apr;44(4):424-9. 

MADSEN K, MACLEAN DA, KIENS B, CHRISTENSEN D. Effects of glucose, glucose plus branched-chain amino acids, or placebo on bike performance over 100 km, J Appl Physiol . 81(6): 2644-2650, 1996.

VAN HALL G, RAAYMAKERS JSH, SARIS WGM, WAGENMAKERS AJM. Ingestion os branched-chain amino acids and tryptophan during sustained exercise in man: failure to affect performance. J of Physiol 486(3):789-794, 1995

domingo, 28 de setembro de 2014

VITAMINA C NÃO SERVE PARA GRIPES E RESFRIADOS



Poucas coisas despertaram a imaginação e as esperanças do público em matéria de nutrição tanto quanto em 1970 o livro de Linus Pauling, a vitamina C e o resfriado comum. A reivindicação principal do livro é que tomar um grama (1.000 mg) de vitamina C diariamente reduziria a incidência de resfriados em 45% para a maioria das pessoas, mas que algumas pessoas podem precisar de quantidades muito maiores. É recomendado que se os sintomas de um resfriado que começar, você deve tomar 500 ou 1.000 mg a cada hora por várias horas - ou de 4 a 10 gramas por dia se os sintomas não desaparecerem com quantidades menores.
 

Sem dúvida, a publicação deste livro, combinado com o prestígio e a reputação de Pauling como um cientista ganhador do Prêmio Nobel, tornou a vitamina C um best-seller. Quando sua teoria foi anunciada, milhões de americanos correram para experimentar por si próprios. A segunda edição do livro, publicada em 1976, como a vitamina C, o resfriado comum e a gripe, sugeriu doses ainda mais elevadas.

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Com o passar dos anos diversos estudos foram feitos para tentar comprovar, ou não, se a teoria de Linus Pauling estaria correta.Praticamente todos os artigos publicados indicam que a vitamina C não previne gripes e resfriados, e praticamente não ameniza, ou ameniza muito pouco, os sintomas dessas doenças virais com uma dosagem bem menor (mais de 10x menos) do que a que Linus propunha.  Para conseguir essa quantidade  bem menor que a proposta por Pauling (cerca de 250mg de vitamina C) não é necessário utilizar suplementação alimentar, já que as frutas cítricas são excelentes fontes dessa vitamina. 

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Existe um instituto fundado por Pauling para que sua teoria fosse pesquisada e levada adiante, sendo que atualmente, o próprio instituto dele afirma que sua teoria não estava correta. Segue abaixo um documentário da BBC onde o Diretor do instituto Linus Pauling fala sobre a Teoria do uso da vitamina C:




Abaixo segue uma tabela sobre quais as reais indicações para a vitamina C, retirada do artigo: Vitamina C: seis problemas em busca de uma solução, excelente texto em português sobre o assunto escrito pela médica Lenita Wannmacher:



Referências


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  2. Pauling L: Vitamin C, the Common Cold and the Flu. San Francisco: WH Freeman, 1976.
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DIETAS HIPERPROTÉICAS NÃO CAUSAM DANOS AOS RINS

É muito comum na atualidade o aparecimento de dietas de todos os tipos, que visam à diminuição da gordura corporal e aumento da massa muscular. A dieta que exige uma alta ingestão de proteínas, ou dieta hiperprotéica é uma delas.


Volta e meia na mídia, seja na TV, jornais ou internet, diversos profissionais da área de saúde, principalmente nutricionistas, afirmam com veemência que a dieta hiperprotéica pode causar danos aos rins a longo prazo.
http://thumbs.dreamstime.com/z/rins-humanos-24696955.jpg

Diferente da opinião desses especialistas ou "Experts" em dietas e nutrição, as evidências científicas atuais não mostram tal correlação. O que se sabe, a partir dos bons estudos e de suas revisões é que, indivíduos que já possuam problemas renais devem sim evitar dietas com muita proteína, mas em pessoas saudáveis, sem nenhum comprometimento renal, a dieta hiperproteica não gera dano aos rins.


Ainda existem estudos como o Protein-enriched meal replacements do not adversely affect liver, kidney or bone density: an outpatient randomized controlled Trial, que afirmam que essa dieta não causa danos renais, nem hepáticos, nem comprometimento com a densidade óssea.


Cada tipo de dieta poderá implicar sim em algum problema à saúde, caso não seja bem feita e nem haja um acompanhamento de profissional qualificado. A dieta hiperprotéica não é isenta de males, mas este caso em especial, o suposto malefício aos rins saudáveis parece não ser suportado pelos estudos. Alguns profissionais insistem em dizer que esses danos ocorrem, mas apenas a opinião deles não vale, e nem relato de casos (um ou dois casos de conhecidos, sem um bom controle de observação não vão superar os milhares de pacientes estudados nas revisões sistemáticas, onde a observação é bem controlada). A argumentação baseada em estudos deverá existir, e caso algum profissional conteste nossa matéria com uma boa argumentação científica, estaremos de acordo em mudar nosso texto sobre esse tema.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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